Bom, há alguns dias fiz um post sobre as maiores desvantagens revertidas pelos campeões brasileiros desde 2006 e, como já estava com os dados organizados, resolvi fazer uma análise análoga para as maiores escapadas de rebaixamento na era dos pontos corridos (desde 2003).
Os critérios usados são bem semelhantes ao do outro post, com alguns ajustes que comentarei mais adiante. Não estamos olhando para aproveitamento ou pontuação absoluta. O que nós estamos interessados aqui é descobrir, dentre os times que escaparam do rebaixamento, quem tinha cavado o buraco mais fundo. A nossa referência principal, dessa vez, é a diferença de pontuação do time na zona de rebaixamento para o primeiro time fora da zona. Essa diferença chamamos de DF.
Antes de mais nada quero destacar que os jogos atrasados/adiantados são contados na rodada em que pertencem. Não valeria a pena ficar analisando todos os jogos atrasados e adiantados. Me lembro, por exemplo, do Flamengo de 2007 que teve uma série de jogos remarcados no Maracanã por causa do Pan. O próprio Goiás, no nosso Brasileirão atual, está a 7 pontos do Coritiba (primeiro time fora da zona) mas tem 3 jogos a menos. Até que o Goiás dispute esses dois três jogos essa diferença é muito mais virtual do que real.
A tabela abaixo traz os 30 times que reverteram as maiores diferenças de pontos para sair da zona e escaparam ao fim do campeonato. A coluna n indica quantos jogos restavam no campeonato no momento em que essa diferença existiu. Note que DF é a maior diferença que o time teve para o primeiro fora da zona naquele campeonato, dessa forma se o time esteve a 1, 2, 3, 4 e 5 pontos de sair da zona, em rodadas diferentes, nós só estamos levando em consideração a diferença máxima, que nesse caso seria 5. Outro detalhe importante também é que n é o menor número de jogos que restavam no campeonato. Se o time esteve a 5 pontos de sair da zona quando faltavam 20 jogos e depois novamente quando faltavam 7 jogos, nós só consideramos a menor quantidade, que nesse caso seria 7.
| Rank | Ano | Time | DF | n |
|---|---|---|---|---|
| 1 | 2009 | Fluminense | 9 | 10 |
| 2 | 2003 | Grêmio | 9 | 13 |
| 3 | 2018 | Ceará | 9 | 23 |
| 4 | 2007 | Náutico | 9 | 26 |
| 5 | 2005 | Figueirense | 8 | 16 |
| 6 | 2015 | Coritiba | 8 | 21 |
| 7 | 2005 | Athetico-PR | 8 | 32 |
| 8 | 2010 | Atlético-MG | 7 | 13 |
| 9 | 2010 | Atlético-GO | 7 | 23 |
| 10 | 2006 | Palmeiras | 7 | 28 |
| 11 | 2008 | Fluminense | 7 | 29 |
| 12 | 2004 | Paraná | 6 | 19 |
| 13 | 2017 | Vitória | 6 | 21 |
| 13 | 2019 | Fluminense | 6 | 21 |
| 15 | 2004 | Botafogo | 6 | 35 |
| 16 | 2004 | Paysandu | 6 | 37 |
| 17 | 2014 | Coritiba | 5 | 13 |
| 18 | 2006 | Goiás | 5 | 18 |
| 19 | 2011 | Atlético-MG | 5 | 19 |
| 20 | 2008 | Santos | 5 | 24 |
| 20 | 2018 | Athletico-PR | 5 | 24 |
| 22 | 2003 | Goiás | 5 | 27 |
| 23 | 2010 | Avaí | 4 | 7 |
| 23 | 2013 | Criciúma | 4 | 7 |
| 25 | 2007 | Athletico-PR | 4 | 16 |
| 26 | 2013 | São Paulo | 4 | 19 |
| 27 | 2016 | Cruzeiro | 4 | 21 |
| 28 | 2009 | Athletico-PR | 4 | 23 |
| 29 | 2004 | Flamengo | 4 | 25 |
| 29 | 2014 | Flamengo | 4 | 25 |
Confesso que a primeira vez que vi essa tabela fiquei meio surpreso. Não com o líder, pois já esperava que fosse o Fluminense de 2009 fosse o principal time dessa análise, afinal, desde então o tricolor foi até apelidado de "Time de Guerreiros". Minha maior surpresa está no segundo colocado. O Grêmio de 2003 teve que reverter uma situação muito semelhante à do Fluminense e não é tão conhecido assim.
Resolvi até dar uma procurada em matérias sobre o assunto "maiores fugas de rebaixamento" pra ver se haveria citação a esse time do Grêmio mas não encontrei nenhuma. Talvez o time tenha ficado marcado entre os gremistas. Talvez ele realmente não tenha ficado marcado e o motivo pode ter sido o fato de que o Grêmio acabou caindo de qualquer forma em 2004.
O gráfico abaixo apresenta a DF dos times que conseguiram reverter as maiores desvantagens e escaparam do rebaixamento, desde 2003, ao longo do campeonato. Todos os pontos abaixo da linha laranja DF = 0 indica que o time em questão estava na zona de rebaixamento naquela rodada.
De qualquer forma, esse ranking não é o meu ranking final. Como disse no post sobre as desvantagens revertidas pelos campeões, tirar 6 pontos faltando vinte rodadas é uma coisa. Tirar 6 pontos faltando duas é outra. Podemos, então, avançar um pouco mais na análise.
No post anterior eu havia criado uma "diferença ajustada" DFA, que, basicamente, era a divisão da DF pelo percentual de campeonato restante. Porém aqui seríamos obrigados a fazer algumas modificações.
A primeira delas diz respeito ao "percentual de campeonato restante". Não acho que cabe mais ficar olhando para percentual restante agora que os campeonatos tem durações diferentes (em 2003 e 2004 o campeonato brasileiro durou 46 rodadas, e em 2005 durou 42). Tirar 6 pontos de diferença quando faltam duas rodadas é tão difícil em 2003 quanto em 2019. Se eu mantivesse esse percentual de diferença eu estaria dando um peso a mais aos campeonatos de 2003/04 e 05 que eu não julgo ser correto.
A outra questão em relação a DFA é que ela não faz muito sentido quando olhamos para a parte final do campeonato. Se nós pensarmos que a DFA(DF=3, n=10) é igual à DFA(DF=6, n=20), ou seja, que "tirar 3 pontos quando faltam 10 jogos é o equivalente à tirar 6 pontos quando faltam 20 jogos" a coisa até faz sentido. Mas se observarmos que a DFA(DF=3, n=1) é igual à DFA(DF=30, n=10) a coisa muda de figura. A DFA basicamente diz que precisar reverter uma diferença de 3 pontos quando falta 1 jogo é o equivalente a reverter 30 quando faltam 10, ou 60 quando faltam 20. E acho que vai ser difícil alguém considerar isso justo.
Obviamente eu precisei fazer um novo ajuste. Confesso que não gastei muito tempo aqui não, resolvi ir em algo mais simples e direto e que, mesmo que não fosse perfeito, fosse uma evolução do que eu tinha antes. Se por um lado a DF diz que tirar 3 pontos quando faltam 10 jogos é o mesmo que tirar 3 pontos quando falta 1 jogo e por outro a DFA diz que precisar ganhar todos os jogos que faltam quando falta 1 jogo é o mesmo que precisar ganhar todos jogos que faltam quando faltam 10 jogos, a solução mais simples é apenas tirara média geométrica das duas e avaliar se faz sentido. E essa é a DFX, ou "nova diferença ajustada".
DFX = sqrt(DFA*DF) = DF/sqrt(n)
Pela DFX, precisar tirar 3 pontos de diferença na última rodada não é o equivalente a tirar 9 pontos quando faltam 3 jogos, mas sim 5,2 pontos. Da mesma forma, precisar tirar 9 pontos quando faltam 10 jogos, que foi o que o Fluminense de 2009 fez, não equivale a tirar 0,9 pontos na última rodada, mas sim 2,8 pontos. Como disse, não é perfeita, mas é uma evolução. Em suma, a DFX é uma variável que busca traduzir qualquer diferença ao longo do campeonato para quando faltava apenas uma rodada para terminar o campeonato.
Podemos então, finalmente, ranquear as maiores fugas de rebaixamento da era dos pontos corridos com base na DFX. Na tabela abaixo, a coluna n traz o número de rodadas que faltavam quando o time teve sua máxima DFX. Observe que não necessariamente a rodada da máxima DFX é a mesma da máxima DF. O Grêmio de 2003, por exemplo, teve a máxima DF na 33ª rodada, quando estava a 10 9 pontos do primeiro time fora da zona. A sua máxima DFX, porém, foi na 42ª rodada, quando esteve a 6 pontos do primeiro fora da zona faltando apenas 4 rodadas para o final do campeonato. A última coluna apresenta qual era a DF quando o time teve a máxima DFX.
| Rank | Ano | Time | DFX | n | DF |
|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 2009 | Fluminense | 2,85 | 10 | 9 |
| 2 | 2003 | Grêmio | 2,68 | 5 | 6 |
| 3 | 2005 | Figueirense | 2,00 | 16 | 8 |
| 3 | 2013 | Fluminense | 2,00 | 1 | 2 |
| 5 | 2010 | Atlético-MG | 1,94 | 13 | 7 |
| 6 | 2018 | Ceará | 1,88 | 23 | 9 |
| 7 | 2007 | Náutico | 1,81 | 15 | 7 |
| 8 | 2015 | Coritiba | 1,75 | 21 | 8 |
| 9 | 2004 | Atlético-MG | 1,73 | 3 | 3 |
| 9 | 2017 | Sport | 1,73 | 3 | 3 |
| 11 | 2010 | Avaí | 1,51 | 7 | 4 |
| 11 | 2013 | Criciúma | 1,51 | 7 | 4 |
| 13 | 2010 | Atlético-GO | 1,46 | 23 | 7 |
| 14 | 2005 | Athletico-PR | 1,41 | 32 | 8 |
| 15 | 2014 | Coritiba | 1,39 | 13 | 5 |
| 16 | 2004 | Paraná | 1,38 | 19 | 6 |
| 17 | 2006 | Palmeiras | 1,32 | 28 | 7 |
| 18 | 2017 | Vitória | 1,31 | 21 | 6 |
| 18 | 2019 | Fluminense | 1,31 | 21 | 6 |
| 20 | 2008 | Fluminense | 1,30 | 29 | 7 |
| 21 | 2006 | Goiás | 1,18 | 18 | 5 |
| 22 | 2011 | Atlético-MG | 1,15 | 12 | 4 |
| 23 | 2005 | Flamengo | 1,06 | 8 | 3 |
| 23 | 2008 | Athletico-PR | 1,06 | 8 | 3 |
| 23 | 2018 | Chapecoense | 1,06 | 8 | 3 |
| 26 | 2008 | Santos | 1,02 | 24 | 5 |
| 26 | 2018 | Athletico-PR | 1,02 | 24 | 5 |
| 28 | 2004 | Botafogo | 1,01 | 35 | 6 |
| 29 | 2007 | Athletico-PR | 1,00 | 16 | 4 |
| 29 | 2007 | Goiás | 1,00 | 1 | 1 |
Como dá pra ver, Fluminense aparece 4 vezes no Top-20! Sendo uma dessas vezes o fatídico campeonato de 2013, marcado pelo caso Héverton. Pra encerrar, estou colocando abaixo as campanhas do Top-3 do ranking acima comparando a pontuação desses times, que escaparam do rebaixamento depois de cavarem um buraco considerável, com a pontuação do primeiro time fora da zona em cada rodada, portanto, enquanto o time esteve abaixo da linha vermelha ele esteve na zona, acima da linha vermelha, fora da zona.
É isso aí. O post já está longo, vou encerrar por aqui. Depois quando tiver um tempo a mais vou fazer um com o outro lado da moeda, mostrando os times que tinham as maiores vantagens para a zona de rebaixamento e mesmo assim acabaram rebaixados, ou seja, as maiores quedas. Caso alguém queira deixar um palpite aí sobre a maior queda, fique a vontade.
Submitted October 15, 2020 at 10:23AM by Dynamic_Viscosity https://www.reddit.com/r/futebol/comments/jbplup/oc_an%C3%A1lise_das_maiores_fugas_de_rebaixamento_na/?utm_source=ifttt
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